Agora que já assentei e tomei consciência de que estou de volta, concedo-me um tempinho para vir aqui e contar como foi regressar à minha montanha, à minha casa onde, pela primeira vez, retorno e não encontro os braços abertos da minha avó, prontos para me apertar bem contra ela e me cobrir de beijos.


Felizmente fui buscar o Nanu no caminho para casa. Entrámos, assim, os dois no nosso canto, a fazer de conta que a solidão não existe, como se sempre tivesse existido este vazio imenso deixado pelos que foram partindo para sempre.

O Nanu está óptimo e não parece ter sentido muito a minha falta. Nem sequer se manifestou de alegria quando cheguei a casa da Teresa para o ir buscar!!! Também não me rejeitou, o que não foi mau, tendo em conta que, segundo a minha amiga, se integrou perfeitamente em casa dela e estabeleceu sérios laços de amizade com os gatos que lá habitam. Principalmente com a Kika, por quem deve ter tido uma paixoneta... coisa passageira... coisa de bichos felinos! Quando chegou a casa já a reacção foi bem diferente... correu para a sala onde tem o seu cesto e se encontravam todos os seus pertences (bonequinhos de peluche, a sua mantinha, a almofada fofa e cheirosa como nenhuma outra). Enroscou-se e logo começou o "ron-ron", sinal inegável de que, finalmente, tinha encontrado a sua casa, estava a salvo dos perigos do mundo e podia dormir o sono dos justos. Noite fora, veio ter comigo ao quarto e saltou para a minha cama. Ajeitou-se à procura de um contacto comigo, através da roupa, e, tendo encontrado uma perna, a ela se encostou e retomou o som de regozijo. Se eu soubesse fazer "ron-ron" teria feito coro com ele, de tão feliz que fiquei por ele me ter procurado. Agora sim, tudo estava no seu lugar: ao reencontrar o seu aconchego, o Nanu fez-me reencontrar o meu.

A Serra está linda e com os primeiros sintomas de Outono. Nas (poucas) manhãs ou tardes livres, tenho vindo para o jardim, sentar-me a ler no meu banquinho de sempre. Felizmente o vento não se tem feito sentir e o harmonioso conjunto de buganvílias e hibiscos floridos, de variadas cores, apazigua-me a alma, conforta-me e faz-me sentir que pertenço a este lugar, por muitos outros que venha a conhecer (e a amar) ao longo da vida.

No hospital esperavam-me responsabilidades acrescidas e maior volume de trabalho. Tudo bem! Dêem-me condições que eu enfrento tudo com alegria e vontade!... Tive que deixar para trás os Centros de Saúde, tendo ficado apenas com duas manhãs de consultas na aldeia próxima de casa, onde fiz a escola primária e com a qual tenho maiores ligações afectivas.

O Pedro, meu namorado de há algum tempo e que o foi até eu ir de férias, conseguiu transferência para o Hospital de S. João, no Porto. Curiosamente, ou, talvez, expectavelmente, não sinto a sua falta. Tenho tanto com que me ocupar e, nas longas férias que finalmente tive, aprendi algumas coisas sobre os sentimentos que nos ligam às pessoas em diferentes situações. Não, decididamente, ele ainda não era o "Amor da minha Vida". Será que toda a gente tem um?

Termino com esta interrogação, para a qual poderei nunca vir a encontrar resposta.
Uma coisa é certa: sei o que é gostar de alguém, apreciar a sua companhia, fruir o tempo passado a seu lado.
Tanto me basta, por agora.
