domingo, 6 de janeiro de 2008

Diga 33!


"Uma mulher de trinta anos tem atractivos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (...) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer".
Honoré de Balzac in "A mulher de trinta anos"



Aproxima-se, a passos largos, a data do meu 33º aniversário. Não dá para acreditar! Olho para trás e o que vejo? A minha vida feita de pequenos-grandes nadas do passado e minúsculos nadas do presente...
Como posso contentar-me com uma vida dividida entre o hospital (onde me esqueço de mim e me entrego a quem precisa...) e os "meus momentos", na casa do Alto do Monte, cheios de recordações de entes queridos (demasiados fantasmas, eu sei) e um ser humano... - assumamos que sim -, o meu gato Nanú, por companhia. Os livros, claro, o calor da lareira que me aquece o corpo e um copo de porto que ajuda a aquecer a alma. A música de fundo... sempre... quase sempre a mesma, também! Estarei a envelhecer precocemente por ausência de vida social, de família? Estarei a sofrer as consequências de ter optado pela independência, pela autonomia, por este isolamento de eleição?

Sorrio interiormente quando me apercebo de que o velho "diga 33" do João Semana e outros médicos, esses reais, do passado, voltou a estar na moda entre os meus actuais colegas de profissão. Eu não aderi, utilizo outros métodos para obter informação idêntica. Porque o "33" lembra-me os anos de vida que vou ter em breve e, honestamente, esse pensamento quase me martiriza...

Mas eu não tenho o que quero? Não sou o que sempre ambicionei? Não tenho a liberdade por que sempre lutei?

A verdade é que tenho e sou essa Mafalda que quis. Agora, que a tenho inteiramente, já não sei se era mesmo o que queria... ah! a dúvida metódica, a recorrente incerteza relativa ao ideal de felicidade (de satisfação, pelo menos!).

Admito, (não tenho como não o fazer) que, por vezes, me sinto profundamente triste e só. Chego a ponderar a possibilidade de lamentar as decisões tomadas para a minha vida mas, depois, penso: "também, com o que me foi oferecido, não existiam muitas outras opções"... e tento confortar-me com esse pensamento... de acomodação, de alguém que, demasiado cedo na vida, se rende às evidências e baixa os braços, por falta de ânimo para "fazer acontecer" de outra forma.

Chego a chorar: escondida do mundo, sentada no cadeirão frente à lareira, com o Nanú no meu colo. Pena de mim? Não, não tenho. Não quero nem posso ter. Devo-me a dignidade de não deixar que isso me suceda!

Gosto tanto de viver! Gosto tanto das coisas que me rodeiam, do que leio, do que ouço, do que vejo, do que aprecio... será que me falta apenas alguém com quem partilhar? Alguém especial, claro, porque "alguéns" candidatos a isso não me têm faltado! (Por que razão eu, liminarmente, os afasto? Será porque ainda nenhum apareceu com o tal letreiro de "eu sou o especial?") ... deve ser isso! Caramba!... um dia destes sou velha, o Nanú, que também não vai para novo, desaparece, e eu fico mesmo sozinha, nesta velha casa, onde o vento nunca pára de soprar e de fazer-se ouvir nas frestas das portadas e das janelas!

Bom... amanhã começa uma nova semana! Vou ter muitos doentes com que me ocupar durante todos os dias da mesma e pouco tempo para meditar nesta vida pequena, pobre, só, que escolhi viver! Além do mais... isto pode mudar de repente, não é? Depende, acima de tudo, de mim, da minha vontade de voltar a conviver, a socializar (como dizem por aí...), a mudar de registo!

Está bem... veremos... tenho que fazer um esforço para saír desta letargia que me leva a fechar-me no meu canto e a recusar novos desafios e oportunidades. Vendo bem as coisas... ainda nem tenho trinta e três... amanhã, segunda-feira, dia 7 de Janeiro de 2008, para provar a mim própria que todos estes medos não passam de um absurdo, vou pedir ao primeiro doente que me apareça no consultório: "diga 33!"... ah,ah,ah!

Espero voltar, em breve, com novidades alegres e interessantes! Trust me! ;

7 comentários:

Maria disse...

Será apenas um estado de alma que estás a atravessar.
Vai passar... com certeza.
Bom Ano de 2008, Mafalda.

Graça Pires disse...

Mafalda, gostaria de ter as
palavras certas para te dizer que aos 33 anos é proibido estar triste.
Tenho um poema que diz:
a alegria: gastei-a à procura de argumentos para ser feliz.

Não deixes que isso te aconteça, menina, vento agreste.
Um beijo.

mixtu disse...

agora pode dizer:
diga a minha idade...
pensar
reflectir...
memórias
aos 35 anos a mulher está no auge... yaya
escolhas...
o gato...
é do tempo... a morrinhar...

abrazo serrano

Rosa dos Ventos disse...

Conheço mais gente assim...na casa dos 30 e tal, à procura de um caminho menos solitário.
Anda por aí muita malta desencontrada!

Abraço

TINTA PERMANENTE disse...

Francamente hesitei se escreveria aqui qualquer coisa, ou não. É que, a escrita, nas circunstâncias e no lugar, tem limites que devem ser respeitados. Sob pena de banalizar o que não deve. Mas... arrisco:
De todo este pungento montinho de palavras escorre, sem margens nem paragens, um profundo desalento. Vá, no meio, embora que com ares de naufragio imimente, um não tenho pena é assim uma luz sobre o cinzento que vai.
33 anos!...
e... (...)também, com o que me foi oferecido, não existiam muitas outras opções (...); e quantas foram, as opções... procuradas?!

Aqui, um abraço!

marta disse...

Balzac está ultrapassado, Mafalda, no que diz respeito à idade.

Hoje o apogeu da mulher Só começa aos trinta, e vai pelo menos até aos cinquenta.

As Bazaquians de hoje são as da casa dos 40 anos.
Garanto-te que podes acreditar no que digo.

Mas o estar-se só, é fundamental.
Não quero fazer publicidade ao meu blog, mas está editado um post, totalmente copiado, sob licença, do Uva na Vulva, que convinha fosses ler.
è exactamente sobre o estar-se só e ter o amor do desejo de estar com outro, porque apetece e não porque se necessita.
Podes ir ao Uva na Vulva que também está linkado, no meu blog.

Marta Campos disse...

Cheguei a este blog porque faço amanhã 33 anos (somos ambas de 1975!) e estava curiosa em relação à expressão "Diga 33!". O que significa afinal? O que permite avaliar por parte dos médicos?

Entretanto, acabei por ficar fascinada e ler o blog todo! Parabéns pela gravidez e pelo casamento!

Mafalda, embora não a conhecendo, adorei as suas aventuras e desventuras e acredito que merece o melhor. Desejo que o seu "bom gigante" seja "o amor da sua vida" e que, juntos, sejam muito felizes!

Um abraço.