
Há pouco, dei por mim a olhar uma carroça que passou, por um carreiro da montanha, ajoujada de flores campestres, flores que despontam naturalmente, de forma cíclica, na primavera de cada ano, e pensei qual o destino de tanta flor bonita amputada, roubada à sua vida de flor, exclusivamente dependente da terra, do sol, da chuva, do vento. E se uma flor, enquanto ser vivo, também tivesse aspirações, desejos, sonhos, nem que fosse o de permanecer na encosta, até ao fim da primavera, e deixar-se sentir, fruir com prazer de flor, cada raio de sol, cada pingo de chuva, cada sopro de brisa? Isso faria de quem as apanhou um assassino cruel. Não, não posso pensar assim.
Se houvesse alguma possibilidade de existir sensibilidade no reino vegetal, as divindades não permitiriam que se oferecessem flores nos aniversários, em gestos amorosos, ou como última homenagem a um ente querido que parte... (hum... à excepção das impiedosas Moiras, da mitologia grega, ou das Parcas, da romana, que também pertencem ao grupo. Estava a esquecer-me dessas, é verdade, que cabeça a minha!).
Bem, vou apressar-me a fazer qualquer coisa, das muitas que pretendo, antes que a Morte chegue e me arranque pela raíz, ou me ceife pelo caule, com a sua foice implacável!