quarta-feira, 16 de maio de 2007

Disse-me um passarinho

Disse-me um passarinho que a vida não é só tristeza. Que há lugares de alegria, onde as pessoas cantam, dançam e riem, com gargalhadas autênticas, sonoras, soltas de dentro para fora. Que há cidades onde o quotidiano, de tão preenchido, pode parecer alucinante, a quem chega de um sítio calmo e sereno como este em que habito. Que, por vezes, as pessoas que vivem nas grandes cidades passam o dia a corrrer, de um lado para o outro, de casa para o trabalho, no trabalho a trabalhar, do trabalho para o restaurante, do restaurante para o cinema, do cinema para o bar, do bar para casa, onde dormem escassas horas para, no dia seguinte, recomeçarem no mesmo vai-vém de loucos. Que algumas pessoas, nas cidades, ganham muito dinheiro e logo de seguida o gastam, sem dar por isso, e ficam cheios de dívidas, mas continuam a viver como se fossem ricos, livres e despreocupados porque logo, logo, voltarão a ganhar muito dinheiro, que poderão gastar a seu bel-prazer até voltarem a ficar cheios de dívidas. Sempre com ar de ricos, felizes, como se a vida não fosse senão isso. O passarinho disse-me que isto não é tristeza. Eu achei triste. Gosto da parte da música, da dança, das risadas despreocupadas, noite fora, como se os tempos difíceis nunca estivessem para vir e a morte pudesse ser permanentemente adiada. Agora, aqui para nós, que temos cabecinha para pensar, não será tudo isso ilusório? Uma vida de faz-de-conta encenada até ao dia em que termina... e afinal o que fica, depois de tudo acabado? Um frenesim sem-sentido. Um nasce-vive-morre sem estória. Se isto não é triste, o que será?
Disse-me um passarinho que a vida não é só tristeza. Acredito, a sério que acredito. Não me parece, no entanto, que seja nessa balbúrdia das grandes cidades que mora a verdadeira alegria. Não, disso não me consegue ele convencer. Vou continuar a ouvi-lo a ver se percebo o que ele quis dizer para além do que disse. Talvez não me tenha dito tudo. Talvez a intenção seja essa e nunca me chegue a dizer tudo, para que eu tenha de demonstrar esforço e, pelos meus próprios meios, descubra o segredo da alegria. Da alegria fora daqui, bem se vê, porque esta conheço eu bem. Não me chega, eu sei. Não me contento com a alegria que conheço e que deverá ser ínfima quando comparada com a tal alegria que o passarinho diz existir. Duma coisa tenho a certeza: vou continuar a procurá-la, ai isso vou!

14 comentários:

Vasco Pontes disse...

Olá mafalda,
Vim desejar boa sorte e altos vôos.
beijos

mafalda disse...

Olá Vasco,

Obrigada pela visita e pelos votos.

Um beijo.

dulce disse...

Os olhos desse passarinho vêem assim pq vêem do alto, e do alto vê-se apenas de uma certa perspectiva. Efectivamente essa "lufa-lufa" das grandes cidades, esse corropio diário, esse desafio permanente a tudo, é apenas a face visível do iceberg. Quantas vezes debaixo de toda essa azáfama, dessa alegria desmedida, não está um enorme vazio que é preciso preencher a todo o custo! Quantas vezes no silêncio do fim de cada dia não emerge uma infinita tristeza que é difícil calar!
Permanece atenta a esses recados mas olha para aquilo que dizes ter e acalenta-o bem pq aí não me parece estar esse vazio.
Beijinhos.

vida de vidro disse...

Procura-a sempre e sê feliz! **

Maria disse...

A alegria e a felicidade não está no lufa-lufa das cidades. Está dentro de nós. Ou nós é que temos que a procurar dentro de nós. Nas pequenas coisas...
... digo eu....

Acho piada à forma como escreves sobre coisas tão sérias, em jeito do que te "disse um passarinho"...

Beijos

Teresa Durães disse...

gostei bastante da tua escrita (e forma de pensar que é semelhante).

Ainda não descobri foi o segredo de fugir da grande cidade

bom dia

Entre linhas disse...

Despedimos a tristeza e procurámos a felicidade.
Boa semana
Bjs Zita

marta disse...

Nas cidades também há alegria, disso podes ter a certeza.

Não vejo o quadro tão negro.
Na província, também há pessoas bem infelizes e tristes.

o sal da nossa pele disse...

Olá, por acaso eu tenho um passarinho, é a chica xavier, uma piriquita azul, vive livre dentro de casa, tenho para mim que ela quando em cima dos móveis me vê de outra forma, eu para ela estou em baixo... um abraço...

Rosa dos Ventos disse...

Querida Mafalda, para mim, a alegria e a tristeza estão onde o Homem estiver.
Mas a calma, a forma mais simples de viver o quotidiano são, de facto, características mais consentâneas com o campo, as terras pequenas,nisso concordo contigo.

Graça Pires disse...

Gostei do teu texto, Mafalda e de repente lembrei-me daquele poema do Eugénio de Andrade: "Nem sempre o homem é um lugar triste. Há noites em que o sorriso dos anjos o torna habitável e leve..."
A alegria e a tristeza habitam o nosso coração. O lugar onde estamos não faz diferença, mas sim o modo como estamos. Um beijo.

mafalda disse...

Olá Dulce, Vida de Vidro, Maria, Teresa Durães, entre linhas, Marta, O Sal da nossa Pele, Rosa dos Ventos e Graça Pires.

Obrigada a todos pelos vossos comentários. É com grande prazer que acolho as vossas opiniões.

Um abraço.

Besnico di Roma disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Besnico di Roma disse...

Tens razão.
Acredita que nas grandes cidades, gente há que não sabe que o céu é azul… acreditam… já ouviram dizer…
Tristemente, muitos nem conhecem os aromas e as carícias do vento…