segunda-feira, 21 de maio de 2007

Papoilas Ondulantes


Maio. Mês das papoilas. Papoilas ondulantes ao vento. Este vento agreste que nem em plena Primavera nos abandona. Apetece rebolar nos campos repletos de papoilas. Não o faço porque os estragos seriam muitos. Após a minha passagem, ficaria um rasto de papoilas dobradas, amachucadas, mortas. Não quero isso. Contento-me em olhá-las. Assim, tenho a garantia de não as molestar e poder deixá-las continuar a oferecer-me o espectáculo da sua beleza durante o tempo possível.
Esta manhã fui passear por um vasto campo de papoilas. Era um imenso tapete, um manto sem princípio nem fim. Algures, no meio, surgiu uma clareira. Deitei-me nela. O meu corpo estendido, completamento descontraído, em contacto directo com a terra. Eu era uma ilha num mar de papoilas. Deixei que o cheiro da terra me penetrasse as narinas, me irrompesse através da pele e alcançasse o mais íntimo de mim. Imaginei que o chão era o meu amante e o vento que, rentinho, passava por mim com suavidade, me acariciava como ele o teria feito. Uma aventura telúrica. Como testemunhas do meu prazer apenas as lindas e doces papoilas.
Quando se vive num ermo, simultaneamente selvagem e puro, a aspereza da terra chega a parecer meiguice. A mente deixa-se invadir por sonhos, como por cavalos a galope, e o corpo, o corpo acaba por sentir o que o imaginário quer que seja sentido. Hoje fui uma mulher muito amada e amei profundamente. Depois do turbilhão de emoções, de ter sido assaltada por uma enxurrada de sentimentos voluptuosos, voltei para casa com a leveza de quem tinha sabido o que era o amor físico, mesmo que tudo se tenha passado só entre mim e a natureza.

16 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

Hoje correu por aí um ventinho muito agradável, nada agreste!
Por aqui também há belos campos de papoilas, apesar desta arisca Primavera!
Um abraço

Cusco disse...

Gostei deste recanto! Muito bom o tipo de escrita.
Parabéns!

Abraço!

Besnico di Roma disse...

Abençoado seja quem ama a natureza.
Voltarei para te ler com mais cuidado.
Beijitos

bettips disse...

Nova que és, acreditas e essa é a tua missão: sonhar! Fazê-lo bem. Agradeço o teu comentário. Abç

o sal da nossa pele disse...

Olá, eu acho que a natureza é o equilibrio da vida...

Um abraço...

Nilson Barcelli disse...

Parabéns.
Este teu texto é uma delícia.
Uma pequenina história pessoal (se é fictícia ou real, não é imnportante) bem delineada.
Beijinhos.

TINTA PERMANENTE disse...

Passei (já devia ter sido antes...) para ver se estava tudo bem. Contou-me um passarinho que sim e vou devagarinho para não distrair a dança das papoilas...
Abraço!

Maria disse...

Esta estória é... primaveril.
Acho que pode ser possível fazer esse tal amor com a natureza, com o vento a tocar-te, como descreves.
Acho que sim...

Beijos

helena disse...

Olá mafalda gostei de te ler.
Gostei desse teu amor fisico com a natureza.
Todos temos, creio, esse tipo de amor mas por vezes nem damos por isso.
Quando deixamos correr pelas mãos a areia da praia, quando nos debrucamos sobre uma flor para inspirar o seu cheiro, quando afundamos as mãos na àgua do mar e as levamos à boca para sentir o sal, quando acariciamos uma pedra que encontramos e a achamos bela, lisa e macia, quando acordamos e nos esperguiçamos enquanto ouvimos os passarinhos lá fora... enfim em tanta tanta coisa que era importante reparar e nem damos por isso.
Nunca tive a sorte de me deitar num campo de papoilas mas já rebolei num campo de trigo em miuda e nunca me esquecerei da sensação.

Também tenho esse amor físico com os livros, sabes.
Adoro acariciar cada página que li e gostei... ou cada uma que vou ler...

Perguntas-te se eu ia escrever um livro on line ou um conjunto de contos.
"Começar de novo" há-de ser um livro, espero que publicado um dia.
On line vou postando excertos desse livro que tem 3 personagens, a Ana , a Luisa e o Carlos e por isso cada excerto tem normalmente o nome de um deles. Apenas a Ana escreve na primeira pessoa, para os outros sou eu a narradora.
Vai lendo e seguindo acho que vais gostar.

Beijos grandes.

Isabel

vida de vidro disse...

Gostei deste "fazer amor" com a natureza. Porque essas experiências acontecem mesmo a quem tenta senti-la na sua plenitude. **

Graça Pires disse...

Olá Mafalda, espero que não se importe de entrar no desafio dos "meme" que anda a circular na Net, pois passei-lhe a palavra. Um beijo.
Gosto tanto do campo de papoilas...

mafalda disse...

Querida Graça,

Este seu convite é uma honra para mim... recém-chegada que sou. Vou ver se arranjo inspiração.

Beijinho.

mafalda disse...

Vida de Vidro,
Sabia que me entenderias, ainda antes de ter o teu comentário. Há coisas que não se explicam, sentem-se. Nessa categoria incluem-se, por exemplo, as empatias.
Viva o amor por (e com) a natureza!

Beijo.

mafalda disse...

Querida Helena Isabel,
Achei deliciosa a forma como descreveste a tua relação física com coisas materiais, que não pessoas. Particularmente interessante é a tua afinidade erótica (posso dizê-lo?) com os livros.
Gostei muito do teu comentário.
Obrigada e um beijo.

mafalda disse...

Tinta permanente,
Sabes o prazer que me dão as tuas visitas e o carinho que sinto ao ler os teus comentários? Não sabes.
Talvez comeces a sentir qualquer coisa ténue após este abraço bem apertado que te estou a dar.
Com o tempo hás-de sentir outras emoções (eu acredito mesmo nisto da empatia!)...
Obrigada. Um beijo.

mafalda disse...

Rosa dos Ventos, Cusco, Besnico di Roma, Bettips, O Sal da Nossa Pele, Nilson Barcelli, Maria,

Obrigada por não terem desistido de visitar-me e por continuarem a incentivar-me. Vou tentar pagar em dobro o que me dão com as vossas palavras gentis e amigas.
Beijos e abraços para cada um.

P.S. desculpem tê-los juntado num único comentário mas senti que estava a exceder-me ao continuar a agradecer individualmente... coisas de principiante... serão???